quarta-feira, 28 de setembro de 2016

~dazed and confused

O silêncio pode ser eloquente, de fato. Ele não trai como as palavras, embora possa ser tão mal interpretado quanto. Pode machucar e pode ser reconfortante. O silêncio é uma espécie de festival de paradoxos, e Caio era um amontoado deles.

Observá-lo tornou-se uma das minhas atividades favoritas. Eram infindáveis os fins de tarde em que contentava-me apenas em olhá-lo. Contemplativo, com um cigarro na mão. Era minha visão favorita dele. E era reconfortante.

- O que tu tá olhando?
- Você , uai.
- Senta aqui.
- Vem pra cá você, o vento tá ótimo.

Aos poucos, o ar melancólico pós partida de Violeta ia dissipando-se. A saudade ainda martelava, mas agora parecia fraca, menos cinza e mais rarefeita. Uma espécie de coração que batia devagar demais.

E foi observando Caio que enfim, compreendi que ele não era de fato uma rocha de silêncio e mistério. Ele só era sucinto nas palavras, e existencialista em demasia nos pensamentos. Um ultra romântico, sem dúvidas. 

Já faz algum tempo que Caio não vai embora, e isso não me incomoda. A casa é um festival de cinzas e bitucas pelo chão, e o ar é embaçado pela fumaça que nunca vai embora totalmente. Na mesa algumas xícaras tornaram-se cinzeiros para sempre. O café é forte como cada abraço, e junto com um infinito de cigarros, tiram a força da boca a sensação doce dos beijos.

E o final do outono ganhava um tom visual feliz e melancólico ao mesmo tempo.

Quando eu me sento com ele no sofá, aproveitando a listra de luz, agora bem fininha, ele segura minha mão, e me dá o cigarro pela metade. Uma imagem estática perfeita, se não fosse a fumaça do cigarro, sempre subindo.


- Tem um tempo que eu quero te dizer algo. - Ele diz, virando seus enormes olhos pra mim. Eles estão estranhamente claros, quase iluminados eu diria. Estamos perto e eu posso ver todos os detalhes irregulares da sua íris.

- E eu estou te ouvindo, pode falar.
- Tem certeza? Já tem um tempo que eu quero dizer isso, só não sei como.
- Você pode sempre me dizer o que quiser, quando quiser Caio.
- Ok.
- Ok?
- Eu amo você.

E entre o espaço de tempo que eu ouvi isso, e o esboço da minha reação, a campainha do apartamento tocou. E Caio levantou-se de supetão, o que não era exatamente de seu feitio, para atender. Segundos depois, ele e Violeta passam pelo umbral. Dazed and Confused do Led Zeppelin toca mentalmente pra mim, enquanto me sinto caindo, girando e girando e girando pela espiral que é o amor. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

~ dos olhares violentos

Conflito. Não existe palavra melhor pra definir o misto confuso e louco das sensações e sentimentos que agora me habitam. Não consigo fumar um cigarro inteiro sem que a fumaça me traga lembranças dolorosas por demais de algo que eu mesma decidi por um fim. 

Não bastasse a fumaça, o sítio inteiro me traz lembranças. A transa coloridamente transcendental no tapete, as brincadeiras na piscina, as caminhadas pela mata em volta da casa, o céu a noite, o cheiro nos lençóis. Quase dá pra ver os dois na beira da piscina, me chamando pra mais um mergulho.

Naturalmente as coisas tem um fim, digo. Mas as vezes podemos escolher o tal momento. Nunca tive as pretensões dos amores eternos porque  os conceitos me soavam antiquados. Mas definitivamente, o sentimento quando real, era forte, potencialmente doloroso, e fazia toda poesia já escrita ter ali seu sentido, de fato. 

E como era bom. Abençoado seja o dia em que decidi ir em uma praia pouco frequentada, e entregar aquela foto posteriormente. Toda aquela dança enfumaçada, alta, lisérgica, drogada. O festival das mais doces e amargas sensações. Visuais, extra-sensoriais, sinestésicas. Ahh, era muito fácil amá-lo.

E na troca dos pares também. Caio era um amor, com toda sua delicadeza silenciosa, de carinho em cada gesto e calor em cada beijo trocado. O cheiro dele misturado com o cigarro ainda me fazia questionar o quão longe a vontade de se reviver uma sensação podia ir. 

E o conflito vinha da saudade. Amores não são eternos, mas as lembranças que eles produzem, essas são difíceis de deixar pra lá. Podem ficar embaçadas, enfumaçadas, escondidas... mas basta um cheiro, uma brisa, o gosto de um cigarro, e o turbilhão de imagens cheiros e toques estraçalha-me por dentro. É tão ruim dormir em uma cama sozinha quando o costumávamos ser três. 

É tudo mais frio, como o ódio irracional que eu me pegava sentindo naqueles últimos dias. Eu estava ficando pra escanteio. Não da forma como eu achava justa, rápida e limpa. Mas da maneira cruel. Um pouco todo dia. Claro, nós sabíamos dos riscos. Mas sabíamos? Mesmo? 

Caio, de repente, estava mais presente com Lucca do que eu. Iam dançar juntos nos dias que eu não podia. Proposital? Talvez não, mas isso só tornava tudo mais doloroso. E em nenhum momento os dois percebiam. 

É aterrador perceber o início do fim do seu próprio tempo com alguém. E um relacionamento que não seja de uma noite com três pessoas é uma metáfora perfeita para um barco construído exclusivamente para afundar. 

E porque esperar que o barco afunde devagar, quando se pode terminar tudo de uma vez jogando-se para o mar revolto? A dor não é física, porém funciona como placebo para a libertação, ainda que precoce e de certos pontos de vista, auto-destrutiva. 

Ahh, como eu sinto saudades dos dois e como por hora eu sequer quero saber o que eles fazem. A piscina do sítio tá cheia e fria. Sentada na beirada meus pés passeiam vagarosamente, desfazendo a todo momento o reflexo do céu e a mão vem e vai da boca com mais um cigarro. A desculpa perfeita pra mergulhar na água, na minha solidão. Eu quero voltar. Eles querem que eu volte. E as provas disso devem estar no meu telefone. Mas tudo tem seu tempo. E nesse caminhar, eles podem me esquecer, ou eu deles. 

Mas agora tudo que eu quero é o silêncio frio da água e o rufar do meu coração, ferido, porém vivo. 
Queria terminar o cigarro, mas a vontade de estar submersa vai contra tudo, e o cigarro morre no mesmo momento que tomo fôlego para um longo e silencioso mergulho na paz escura do fundo da piscina. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

~abstinência


Ao redor tudo é som, mas em mim habita o silêncio. É como se o mundo estivesse prestes a ruir sobre mim. O barulho ao redor não me impede de ainda ouvi-la, mais alto que nunca: 

- Você foi, você foi. Mas agora não é mais. 

Há uma correria, mesmo eu estando imóvel. Sinto-me pesado pelas sombras que agora me habitam. O alarme que ouço indica que deve ser quase manhã. Também ouço a porta batendo, e Violeta partindo, mas a porta está trancada. 

E tudo vai passando, e acontecendo. Os ventos medianos mas insistentes do outono vão soprando tudo pra longe, trazendo o frio já pré anunciado. Caio não está, e já faz alguns dias. Eu mando uma mensagem que ele responde de imediato, mas eu já não me preocupo em olhar. 

O amanhecer ainda não veio e a unica luz é a do telefone piscando. Tudo parece tão superficial agora. Solidão é uma benção, costumam dizer por aí, mas eu me recuso a aceitar . Se eu me esforçar posso ouvir o furacão que vem vindo pra acabar com tudo de uma vez. 

E novamente eu ouço. Já foi mas não é mais. Há tempos não a vejo. Mesmo religiosamente indo a todo lugar comum. Violeta não emitia mais nenhum sinal, senão o da ausência. Mas o que fazer que não respeitar o seu tempo. A abstinência me gritava agora. Não de fumo nem de droga alguma. A abstinência do sentir-se pleno quando com o outro. 

Eu não desapareceria e Violeta talvez nunca mais voltasse. Caio ajudava-me a passar por isso, e eu me questionava a falta que Violeta fazia a ele. Provavelmente menos visceral do que a necessidade que eu sentia. Eu tentava passar por isso incólume, sem impor a mim grandes coisas, o que era um erro, de fato. Definitivamente eu não estava pronto. 

Eu não podia mais ouvir o furacão anunciado. Mas sentia-o, porque estava nele. Dilacerando-me. Era péssimo pensar em Violeta amando outrem. Mas este sempre fora nosso contrato com a liberdade, independente do sentimento forte e ao mesmo tempo delicado em que nós nos mergulhávamos todo dia, um pouco mais. 

Você foi, foi, foi, foi, foi. 

E mesmo com isso tudo, os sentimentos por Caio não enfraqueciam, como eu imaginei que aconteceria no caso de um possível (porém improvável?) rompimento. A sua maneira ele era encantador, companheiro, mesmo no silêncio velado em que as vezes nós nos imergíamos. Carinhoso em todo gesto, gentil em todo toque, caloroso até no abraço mais breve e no beijo mais brando. 

Eu o amava e Violeta havia pego um bilhete para o próximo trem. O vento sussurrava: Você foi. 
Violeta fora. E eu permanecia, seguindo o vento calmo do outono, floreando devagar, realizando leves piparotes, ao passo que a ventania arranhava meu âmago, ensurdecia meus ouvidos e toldava minha visão, como o vendaval que costuma levantar poeira e folhas demais.

Ao redor tudo é som, mas escuto apenas o vento, uivando no vazio infindo e meio gelado. 

sábado, 16 de julho de 2016

~sometimes, we float

Caio me chama pra passear, mas eu peço pra deixarmos pra outro dia. Ele quer ir nos lugares que outrora frequentávamos assiduamente, onde costumávamos dançar, beber, tanto faz. Todos os dias são os mais solitários da minha vida desde que a Violeta foi. Era como entrar na rua mais movimentada da cidade, e tudo estar no mais absoluto e assustador silêncio. Você só ouve o vento nos ouvidos, e é invadido ao mesmo tempo por uma paz e um medo súbitos. Tudo é vazio. É como uma uma camada fina e fria que separa você do resto do mundo. Todo o barulho volta, mas você permanece em silêncio por mais alguns segundos. 

Eu mando uma mensagem dizendo que minhas emoções estão mortas. Não me admira que eu me sinta tão estranho. Caio diz que vem passar um tempo comigo, e eu peço pra deixar pra outro dia, mas ele insiste. Ele me diz que é a primeira vez que ele sente como se algo fosse dele.

Isso dói tão fundo no meu âmago, que minha visão enturvece. A sensação é a mesma de uma droga muito pesada. Acendeu uma centelha de alegria , e uma fogueira inteira de culpa, incerteza, loucura, desorientação.Se eu pudesse ter de volta o tempo, eu adoraria desperdiçá-lo mais uma vez amando. Mas Violeta se foi, e nada é como antes.

Caio chega e eu já fumei todos os cigarros que existiam. Ele me dá mais alguns e um abraço tão confortável que eu me perco. Quando dou por mim estou chorando, mas ele não me larga. E quando meus olhos já estão secos, vermelhos e um pouco vidrados, eu encontro seu sorriso, meio cansado, meio amarelo.

Eu preparo um café, nós temos muitos cigarros. A falta da Vi também se faz presente nele. Dá pra perceber em todo gole de café, em cada tragada de cigarro. Agora ele se abre mais pra mim, porém ainda temos longos períodos de um silêncio confortável, e de cumplicidade. Caio é o meu amigo certo das horas de auto-destruição e abuso de drogas, e talvez eu seja o porto seguro dele.

- Tá afim de dar uma volta hoje? - ele pergunta.
- E pra onde nós vamos? - respondi.
- Nós vamos rápido e pra lugar nenhum.

E nós saímos pela noite fria de outono. Eu no carona, cigarro na mão. Caio puxava a fumaça da minha boca quando queria fumar e meu deus, como eu achava aquilo sexy. A vida voltava a mim por alguns segundos, mas esvaia-se depois , junto com a fumaça do próximo cigarro.

- Tu quer tentar algo novo e perigoso hoje? - e um meio sorriso esboçou-se no rosto dele.


Eu preparava um baseado e a menção ao perigo fez meus pelos da nuca eriçarem. Algo novo e perigoso. Novo. E perigoso. Talvez o arrepio fosse um engano. Caio gostava de lugares altos, andar nas beiradas, dançar com o perigo vez ou outra.

E eu disse sim, mesmo sem saber o que era.

Então dirigimos sem rumo, nas ruas quase totalmente vazias. O outono deixava a noite menos nítida, e tudo ao redor era uma quase névoa.

- É agora - Ele diz.

Ele para e desliga o carro completamente. Os faróis estão apagados e estamos exatamente no meio da rua. É uma ladeira razoavelmente comprida, não tão íngreme, que terminava em um cruzamento. Ele dá um trago no meu baseado, e um beijo que me deixa exatamente sem fôlego. Então ele solta o freio de mão e tira as mãos do volante. E o carro começa sua descida, cada vez mais rápido. Há um misto de medo e adrenalina correndo em mim. Tudo fica extremamente nítido. Caio com os olhos fechados, quase sorrindo, e o meio cigarro na mão dele brilha como um pequeno farol. Eu respiro fundo e também fecho os olhos. A sensação é exatamente a de flutuar. Sinto a velocidade diminuir quando passamos pelo cruzamento ilesos e começamos a subir a continuação da rua. Caio olha pra mim, curioso.

- Você gostou? - A voz dele exalava uma euforia sutil, mas ainda sim, percebível.
- Foi como flutuar !
- Sim, como se nada terreno nos prendesse.

Caio soava libertador. E nós nos beijamos. E dessa vez eu imprimi em cada beijo uma paixão ímpar. Talvez fosse a adrenalina, ou talvez só a sensação de ainda estar flutuando. E pelo resto da noite ficamos por aí, desperdiçando-nos um no outro. Encontrando o conforto e a loucura juntos e sozinhos ao mesmo tempo. E por mais que, no final da noite, enquanto nos aquecíamos no corpo um do outro, eu tenha lembrado de Violeta, por um ou dois momentos Caio me fez flutuar e esquecer completamente aquela dor crua da saudade. E naquela noite eu dormi em paz, mesmo tendo certeza de que nos meus sonhos, o tormento nunca terminava.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

~partida



- Então é isso Violeta? – a lágrima que escorreu parecia fria – Arrasa logo o meu coração.
Ela também chorava, em silêncio. A sala já tava escura. O cigarro na minha mão era só um pontinho laranja na penumbra que se formava. O ar estava estático na varanda.

- Você ainda pensa em mim enquanto tá fodendo com ele? 
- Nunca foi isso. Você sabe que não.  – e as lágrimas agora rolavam indiscretamente, no rosto dela e no meu.
- Você falou que eu era seu .
-E você foi, você foi, mas agora não é mais.

Ela me beijou. Eu também já não segurava o choro, e era impossível não retribuir o beijo. Foi seco e silencioso.

- Me diz que eu sou seu, mais uma vez, por favor– Supliquei.

A cabeça encenava o sinal claro da negação. Eu não podia ver seus olhos, mas eu sabia que estavam mais claros e vermelhos. Todo aquele tempo construindo um castelo de núvem, feito pra devanescer na primeira brisa do outono.  Nós sabíamos do risco. Segurei a mão dela, num ultimo e vão esforço.

Dizem que as pessoas ficam mais bonitas quando estão de saída. A lembrança dela na porta, o olhar lívido na luz branca do corredor, o barulho da porta se fechando, enquanto eu voltava novamente a já quase completa escuridão.

A briga durou todo um entardecer, e agora restava um cigarro aceso e a ausência da luz.  Não lembro se adormeci ou só fiquei catatônico. Na manhã seguinte , uma mensagem do Caio na caixa postal, ligando pra saber de mim, de nós.

O primeiro sol de outono foi difícil de entender, parecia frio, branco, sem vida. Estaria minha realidade quebrada? Perdi a conta dos cigarros, mas o chão repleto de cinzas gritava pra mim que eu passara da conta a muito.
Violeta fora-se, levando um pedaço meu com ela, sem saber se podia ou não.  Deixou claros os motivos da partida. Nós sabiamos dos riscos, nos arriscamos, e perdemos. Todos perderam. Mas nela havia um sentimento desgarrado, de nascimento cruel, a desconfiança de um sentimento menor.
     
                                                                      ***

A pior parte de ter sido amaldiçoado com a poesia muito jovem, foi que virou uma espécie de arte criar expectativas extremamente infundadas. A exemplo: a de que Violeta um dia voltaria aos nossos braços e tudo seria como sempre tinha sido.
Mas o que era Violeta, se não o melhor enigma de todos. Gehemnis. Jamais a procurei, até a vir chegar, jamais impedi-a na sua partida.  Aprender a lidar com o temperamento imprevisível era a segurança de que tudo sempre correria bem. E um erro também. Não dá pra segurar o ar com as mãos.  
         
Porém Caio permaneceu. Apareceu por aqui uns dois dias depois. É incrível como esse tipo de quebra tem a habilidade incomun de distorcer a passagem de tempo. Tivemos abraços longos, mas insatisfatórios. Beijos meio vazios. Sexo quase sem calor, sem motivo, morno. Era odioso o fato de tudo ser tão outonal, como Violeta ao vento, sem rumo.

Caio permaneceu, fazendo-me sentir em seus abraços e em nosso silêncio velado, que a perda também era dele, deixando o outono seguir e e virando as boas lembranças em folhas secas, desprendendo-se ao vento mais suave, o vento que vem premeditando o temporal.

terça-feira, 10 de maio de 2016

~dia um

Quando nos conhecemos, fazia um dia de sol na minha praia deserta favorita. Não direi onde é pra não matar o segredo, e para que a mesma continue deserta. 

Aquela praia era a minha única fuga nas férias de verão. Meus pais sempre iam ao mesmo lugar, todo ano, sem excessão. 

Obviamente, eu ia a praia fumar escondido, mas dizia a eles que ia buscar minha conexão com a natureza. Observar a maré virar, a ressaca do mar. E até então, minha praia deserta e particular tinha sido só minha, por anos a fio. 

Mas naquele dia, após praticar o meu hábito quase ritualístico de deitar na areia e fumar até minha visão ficar distorcida, eis que surgiu Violeta. Um delírio causado pelo abuso de drogas e o sol forte? Desidratação? Duvidei de sua existência até que ela sentou ao meu lado, inesperadamente. Eu não queria ir embora e eu também não queria ficar. Eu não tinha nada a dizer. 

- Pensei que só eu vinha aqui fumar e esperar o sol ir embora. – Ela era bastante direta.
- Parece que estou invadindo o seu espaço. - Disse eu.  
- E eu o seu. Mas não é invasão se você me emprestar seu isqueiro. Meu nome é Violeta, mas a maioria me chama de Vi. 


Ela era realmente afiada com as palavras. Eu disse meu nome, ainda sem jeito, nem sei se ela ouviu. Eu meio chapado, observei ela acender um baseado, e perdi-me na fumaça densa que ela expeliu. 

- É hoje o dia em que a maré vira – ela disse – Tá afim de esperar pra ver? 

Não tinha nada no meu caminho aquele dia, a não ser o sol, o vento, as ondas, e agora ela. 
Dei com os ombros. Ela me ofereceu o cigarro, que eu prontamente aceitei. E em poucos minutos, estávamos ali, estranhos um ao outro, porém bastante amigáveis. Calados, mas rindo de nada as vezes, por sentir o vendo estranhamente quente da tarde. 

- Posso tirar uma foto sua? – ela pediu. 
- Pode. Quer que eu faça alguma pose? 

Ela era da mesma cidade que eu, um ano mais velha. Ela tirou da bolsa uma máquina instantânea. 

- Essa pose tá perfeita! 

E ela tirou a foto. Ficou sacudindo o papel até a imagem aparecer, mas não me deixou ver. 
Sentou-se ao meu lado novamente e guardou a fotografia na bolsa. Para dois solitários em uma praia supostamente deserta, até que estávamos tendo uma tarde divertida.

- A maré virou. 

Eu não entendia bem quando a maré virava, mais necessariamente, o que era isso. Também não entendi o beijo que se seguiu, mas com todas as minhas forças, eu respondi. 
E sorrimos ao final.


E sutilmente, como a maré que vira, ela se foi. A foto, segundo ela, me seria entregue da segunda vez em que nos esbarrássemos de forma aleatória, o que não demorou muito afinal. E pelo resto do dia, o som das ondas, o beijo, o flash na hora da foto, a sensação do vento e da areia na pele, tudo ficou reverberando na minha cabeça, mas não mais do que a fatídica frase: A maré virou.

domingo, 24 de abril de 2016

~práxis

Quando desperto, a tv ainda está desligada, e o dia avança devagar. Não há sinais de Violeta, tampouco de Caio. Estar agora acordado, era de fato perceber que tudo fora real. As cores escorrendo da tv, o sexo sintetizado em uma epifania de desordens sucessivas e prazerosas, os cheiros, os gostos, a sensação do toque. 

Eu saio da sala pela porta de correr de vidro, para minha primeira luz do dia, pois o sol em si já estava quase à pino. As cores parecem de fato mais vivas, mais palatáveis ao corpo e mente. Sinto um leve aroma de café, sobrepondo o cheiro do dia, da piscina, do sol na grama verde. Claro, Caio e Violeta estavam na cozinha. 

Violeta me recebe com um beijo no rosto e uma xícara de café. Seus cabelos agora parecem um pouco violetas, ou é só efeito do ácido? No final eu prefiri não querer saber. Caio estava de costas, preparando algo. O almoço. 

- Hoje temos o dia inteiro para nos matarmos de tanto pegar sol, o que tu acha? 
- Eu acho que sim, muito bem e obrigado. 
- Achei que já estava implícito que ficaríamos ao sol, mas não agora, primeiro vamos comer. Eu preparei o nosso café, ou almoço, ou brunch.- Acho que esta foi a maior frase de Caio, desde que nos conhecemos. Violeta dizia que ele podia falar bastante... quando queria. O que não vem ao caso.


Caio preparara pra nós um tipo de torrada especial. Eggs in a Basket, mas segundo ele, esse era o nome chique para algo que consistia apenas em um ovo frito dentro de uma torrada. E era delicioso, obviamente.  Junto com o café, aquela pareceu, por muito tempo, a melhor refeição que eu faria na vida. 

E a tarde veio, e nossos corpos dançaram na água, entrelaçando-se em beijos, carinhos. Um mergulhando no outro, sem se importar com o possível futuro afogamento. Mas não era hora de pensar nisso. Caio fuma um cigarro na espreguiçadeira enquanto eu e Violeta apostamos quem prende mais a respiração. 

- De quem é esse sítio Violeta? – Caio perguntou, educadamente, com medo de parecer muito intrusivo. 
- Meu avô deixou de herança pro meu pai, mas ele não usa quase nunca. Nós costumamos vir aqui as vezes, mas nem é nada demais. 
- Na verdade é sim Vi. Não tem som de carros passando, gente falando o tempo inteiro. É como se o ar tivesse parado.  – E era mesmo. Em poucos lugares poderia-se encontrar tamanha paz. E o sítiozinho era até bem simples. Uma casa pequena, quase rústica, com uma sala e copa, uma cozinha, um quarto com cama de casal e um guarda roupa. As janelas eram de vidro, pois o pai de Violeta trocou todas quando herdou, além de dar uma modernizada nas portas também, e adicionar a alegria de todos as nossas visitas ao local. A Piscina. Que nós, por acharmos o termo piscina comum demais, decidimos chamar de “ O Lago”, que também era comum, mas era nosso, e nós éramos péssimos com nomes. 

E por horas infindas nós ficamos ao sol. É claro, Violeta trouxera um baseado, e nós ficamos agradavelmente macios e agradáveis ao toque. E eu já estava tão cansado que estava prestes a adormecer e sonhar que estava pintando Caio e Violeta com meu onírico pincel  usando as cores que eu não sei o nome. Eu estava tendo uma epifania? Como Violeta sempre dizia, epifania é quando você dá vazão ao desejo. E ela não poderia estar mais certa. 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

~contentação

De volta a sacada do meu apartamento. Anoitece devagar. O céu é de um azul vívido e contrasta com nuvens cor de rosa. Sem camisa, a brisa fria vem de encontro ao meu peito. Ela leva também um pouco das cinzas da ponta do cigarro.


Violeta não dava sinal. Telefone desligado, nenhum pré aviso. Caio surge da meia luz da sala, e me abraça ali na sacada, mandando embora qualquer resquício do friozinho de início de noite. Sorrindo ele me cochicha no ouvido enlaçando os braços ao meu redor.


Não paro de pensar em Violeta. Seria proposital? Eu conheço-a e ela conhece-me. 50 a 50. Poderia ser um problema de família talvez? Toda quinta era nosso dia certo no meio de semana, e nessa ela não estava.

Viro-me meio que contra vontade, sabendo que teria de sustentar aquele olhar magnético.

- Acho que a Violeta não vem hoje. Ela disse algo pra tu?
- Hoje ela não falou comigo. Tu tá bem?
- Tô sim, é que tô tão acostumado a passar as quintas feiras com ela que quando eu não passo, é como se o dia não tivesse validade.
- Eu acho que eu entendo. Eu fiz uma coisa pra você.

Ele saiu, foi até o quarto, e voltou algum tempo depois, com um papel na mão, que ele me entregou. Era uma de suas pinturas, aquareladas. Tão bonita, íntima, tão tão... fabulosa. Fiquei sem reação um tempo.

- Obrigado - foi o que eu pude dizer. Ele assentiu com a cabeça, dando um meio sorriso.
- Tu gostou? - quis saber.
- Mas é claro que sim. Ninguém nunca me deu algo assim. Obrigado mesmo - e abracei-o.

E o abraço evoluiu para um beijo intenso. Hoje eu o tinha, e ele tinha a mim. Só nós dois, um pro outro. Afastou a boca da minha só pra aproximá-la novamente meio segundo depois e começar tudo de novo.

Calor humano, frenesi, e o sexo desenrolando-se nas incontáveis horas seguintes. Violeta não dera nenhum sinal e já passava da meia noite agora. Grilos cricrilavam no vasto matagal além da varanda e a lua erguia-se imponente e prateada. Nu eu matava mais um cigarro. Eu também tinha feito algo pro Caio e pra Violeta. Uma poesia que encerrava um sem fim de referencias a nós. O nosso poema.
Caio me seguiu, e pegou o cigarro da minha mão, me deu um beijo suave na bochecha e pôs-se a observar a lua.

- Eu também fiz algo pra você. Pra Violeta também. Pra nós na verdade.

E eu recitei o poema, de cabeça. Eis aqui a transcrição:

***

É a décima xícara de café E os cigarros parei de contar no décimo terceiro. O tempo tá frio Mas nos abraços amigáveis, há um calor indestrutível, íntimo. Dos corações que mudam como a lua, ardentes com saudades das nossas vontades Pendentes. Orações para salvar corações. E no meio disso tudo Inanimado ser, cheio de vida, de corpos que nele amavam dançavam Saiam e retornavam. Quantos dias bons para se viver e se ater Ao simples da vida regado de bebida maconha café, comida. Esperando tristes, mas com punho o inverno que vem logo ali, no meio de Junho.
***

Caio terminava o cigarro, e bateu palmas solitárias pra mim. E dessa vez eu que dei um beijo nele. Fiz uma xícara de café pra espantar o cansaço, Caio preparou um baseado pra rebater o café. Um misto de sensações parcas, mas válidas. Tomamos um banho absolutamente altos. High as fuck, como dizia Caio. Acabamos adormecendo assistindo a qualquer coisa. A ultima coisa que me lembro é do cheiro dele e da sensação de afago nos meus cabelos.


sexta-feira, 25 de março de 2016

~wave 3

Aqueles olhos meio castanhos, meio verdes, juntos de um olhar penetrante que só era possível sustentar dada a beleza que carregava É óbvio, eu tava meio bêbado, Violeta dançava como se não tivesse que usar as pernas pra se sustentar no dia seguinte, e o Caio tinha me chamado pra fumar um cigarro.

Na luz turva e enfumaçada, a beleza dele acentuava-se. O sorriso era de certa forma, magnético, e os dentes meio tortos, faziam-me pensar que a perfeição as vezes não passava de um conceito bobo.
Enquanto Caio distraia-se com um furinho em sua calça gasta, eu acendi o cigarro.

- Achei que a Violeta vinha também. - era um tom quase pesaroso, mas ele sorriu e me pediu o isqueiro - Vocês vem sempre aqui?
- É nosso inferninho favorito. Venho com a Vi sempre que precisamos dançar até saber quem a gente é.

Toda vez que ele sorria, os olhos pareciam faiscar. Talvez fosse o álcool mostrando a que veio.
Violeta veio pela porta radiante, parecendo reluzir, mesmo com toda fumaça em volta. As mãos ocupadas com uma bebida azul elétrico e um cigarro não aceso. Quando se aproximou, enredou os dedos nos cachinhos pretos do Caio, e me ofereceu o copo. O gosto era extremamente doce, porém, agradável. Ela acendeu o cigarro tocando-o na brasa do meu. Pelo olhar, ela já tava bêbada e sabia que em breve eu também ia estar. Bebi mais um gole enquanto ela sentava-se entre nós dois.

- E vocês já iam começar sem mim? - Perguntou rindo.
- De fato a gente começou, mas a pausa pro cigarro é sagrada - E dei um longo trago.

Caio mantinha-se calado, por vezes sorrindo para o que dizíamos, ainda uma incógnita. Depois da terceira cerveja, ele se mostrou mais bêbad... sociável. Falou das músicas que gostava de ouvir enquanto pintava suas aquarelas.

Ele e a Vi juntaram-se, já bêbados, e narraram a epopeia sobre o dia em que se conheceram, a quantidade de álcool barato, e as condições adversas que envolviam uma chuva forte e um baseado.
Estávamos trocando shotguns. Eu pra Vi, ela pro Caio, e o Caio novamente pra mim. Completamente perdidos em beijos esfumaçados.

E vitoriosamente Violeta tira da bolsa, um baseado amassado, porém funcional, e nós nos esquivamos dos seguranças para disfarçar enquanto ficávamos agradavelmente leves.
Estamos na pista, somos de todas as cores e ritmos, rodopiando com This Charming Man ao fundo.
E é quase de manhã quando morrem as últimas palavras no som, na voz do Thiago Pethit:

Amigo, escute bem o que eu digo
Gaste seu tempo comigo.
Tire toda minha roupa,
Borra o batom da minha boca,
Venha se perder por aqui.

quinta-feira, 10 de março de 2016

~wave 2

Já estamos sentados a algum tempo, esperando o nada. O sol demora-se, descendo por entre as árvores, fazendo as sombras das cadeiras alongarem-se pelo chão de tábua corrida. De fato, um fim de tarde agradável e comum. 

A xícara de café que me serve está vazia, ansiando por mais. O café dela está intocável, esfriando. acendo um cigarro, e a fumaça sobe na mesma velocidade do vapor que eleva-se do café. O silêncio reina. 

Somos só nós dois, a um tempo que não atrevo contar, com medo de, em algum momento, de justamente ter de encerrar a contagem. Ela me olha nos olhos, através da fumaça. Quer dizer algo, mas toca a xícara toda vez que desiste. Beberrica um gole. 

- Tem um outro cara - Disse ela de supetão, sustentando o olhar, observando milimetricamente a minha reação. 

Esta não foi de surpresa, ou tristeza, ou alegria. Pra mim também haviam outras garotas, outros caras.  

- Pelo que me lembro, podemos ter outros caras, outras garotas - comecei - sem problema maior. Ainda nos temos? 

- Sim, mas é que com esse é diferente. Você já sentiu? É como um magnetismo, eu não saberia definir exatamente. 

- Eu senti por você. 

O sol se fora completamente, e a unica luz na sala, era a réstia do entardecer, lilás azulada. 

- Você quer conhecê-lo? - ela dizia isso em um tom diferente, talvez com medo. 

- Você conhece os riscos? - Ri. Nós nunca conversamos sobre os outros com quem nós dormíamos ou deixávamos de dormir. Nunca impomos essa regra, mas, pelo menos pra mim, era tão único estar com Violeta, que os fatores externos normalmente, não importavam. 

Ela riu também. Talvez eu estivesse tirando um peso de seus ombros. Ela foi até a cozinha. Ouvi-a fazendo mais duas xícaras de café. Ela me trouxe uma, e agora, era a Violeta que eu conheço. Desenvolta, leve como uma pluma. Bebi o meu rapidamente, e deitei-me no sofá. 

- Conheço sim, eu só tava receosa, e agora percebi que sem motivo. 
- Eu não sei, mas talvez eu possa afirmar que não faria nada que desagradasse você. 
- Talvez eu diga que eu já sabia disso. 

Que domingo descompromissado, e que conversa estranha. Ou não. Por vezes, ficávamos horas deitados no piso de madeira, cantarolando qualquer coisa, bebendo café até que o pó terminasse, fumando todos os cigarros que pudéssemos comprar. Por vezes ficávamos calados. Ela na sala, eu no quarto, eu no quarto, ela na sala. Mas só o fato de estar, a presença, alimentava-nos.

- Quando eu vou conhecê-lo? 
- Não sei, não dá pra ser hoje, eu odeio os domingos, principalmente ao anoitecer. Não nos resta nada. Minto. Eu trouxe um baseado ontem, mas acabei esquecendo. Tá afim de fumar? 
- Manda ! 
Ela acendeu o cigarro, e o cheiro fez todo meu corpo ansiar. Ansiar pela fumaça, ansiar o toque dela. O primeiro trago ela me deu na boca. Chamava-se "shotgun", segundo ela, porque era como um tiro no seu peito. O que vem depois é história e fumaça. 




segunda-feira, 7 de março de 2016

~wave 1

- Hey vocês, prestem atenção aqui - duas palmas, para chamar a atenção.- Eu tenho a resposta !

Eu dissera aquilo em tom animado. Os dois me olhavam agora, quase com total atenção. Caio cuida para que as cinzas do cigarro caiam na xícara vazia de café, um pouco disperso e esfumaçado. Violeta passa lentamente a mão nas fibras do tapete, mas seus olhos estão em mim.

Na minha mão, descansam 3 quadradinhos de papel meticulosamente cortados. Eu separo o meu, e com a ponta dos dedos, levo o segundo pedaço delicadamente até a ponta da língua da Violeta. Um choque de energia parece emanar dali.

- E o meu? - É a pergunta que Caio faz, apagando o cigarro dentro da xícara e juntando-se de corpo e alma a nós.

Violeta o beija e posso ver seus pelos nos braços dele eriçando-se. Fecho os olhos por um momento, ouço as calmas respirações irem se intensificando, lenta e perigosamente.

Meus dedos encaminham-se para a mão, e agora, novamente, a ponta da língua. Desta vez, do Caio. O toque dos lábios vira um rápido beijo. As mãos da Violeta envolvem minha nuca, elétricas, puxando-me para si, e me tomando os lábios. Nossos papeis se invertem. Sinto a mão do Caio percorrer meu torso, suavemente. Violeta entrega-me. E eu vou de bom grado. Lenta e sutilmente, ambos envolvem-me em um abraço agradavelmente sufocante, caloroso. As três bocas encontram-se num abraço desordenado e molhado. Todos os papéis desmancham-se no momento. Não há homem nem mulher, só o abraço infindo, agradavelmente quente.

As cores da tv ligada escorrem para o chão, ainda luminescentes, e envolvem todo corpo presente naquela dança. A tinta torna os corpos quase indistinguíveis, a não ser pelo tato. Pupilas dilatadas, adrenalina talvez? Quanto tempo se passou?

Não existe tempo naquele momento, horas infindas, como um dia de veraneio que nunca termina. Mergulho em Caio, afogo-me em Violeta. Somos tão pequenos, mas tão grandes ao mesmo tempo e amo-os tanto naquele momento, que gostaria que o mesmo jamais se fosse.

É tudo tão lindo, a textura dos dois me é tão estranha e tão familiar ao mesmo tempo.

Caio acende um cigarro para tomar fôlego. Sopra-nos a fumaça de forma divertida e descompromissada. Nos dá beijos cinzas, com o tabaco misturado ao seu gosto único. É um sabor exótico. Olho para os dois, lânguido. Amo olhar para eles. Perceber Violeta sentindo cada fibra do tapete com as pontas dos dedos e assim encontrando os dedos de Caio. Perceber os dedos dele retribuindo com um carinho sutil o toque. É tão inacreditável e belo. Leve.

Nos recostamos. As cores escorrem da tela da TV ligada como tinta. Talvez ela nem estivesse ligada afinal. Quem liga?

Nos abraçamos, aconchegando-se uns nos outros, até ficarmos confortáveis. Entre o sonho e a realidade. A fumaça do ultimo cigarro do Caio eleva-se da xícara vazia, em espirais silenciosas.
Caio me dá um beijinho rápido na testa e aperta o abraço. As mãos envolvem lentamente o cabelo de Violeta, que respira tão profunda e calmamente que poderia estar adormecida.

Olho novamente para a tv: Ela estava desligada. Adormeço logo em seguida.