De volta a sacada do meu apartamento. Anoitece devagar. O céu é de um azul vívido e contrasta com nuvens cor de rosa. Sem camisa, a brisa fria vem de encontro ao meu peito. Ela leva também um pouco das cinzas da ponta do cigarro.

Violeta não dava sinal. Telefone desligado, nenhum pré aviso. Caio surge da meia luz da sala, e me abraça ali na sacada, mandando embora qualquer resquício do friozinho de início de noite. Sorrindo ele me cochicha no ouvido enlaçando os braços ao meu redor.
Não paro de pensar em Violeta. Seria proposital? Eu conheço-a e ela conhece-me. 50 a 50. Poderia ser um problema de família talvez? Toda quinta era nosso dia certo no meio de semana, e nessa ela não estava.
Viro-me meio que contra vontade, sabendo que teria de sustentar aquele olhar magnético.
- Acho que a Violeta não vem hoje. Ela disse algo pra tu?
- Hoje ela não falou comigo. Tu tá bem?
- Tô sim, é que tô tão acostumado a passar as quintas feiras com ela que quando eu não passo, é como se o dia não tivesse validade.
- Eu acho que eu entendo. Eu fiz uma coisa pra você.
Ele saiu, foi até o quarto, e voltou algum tempo depois, com um papel na mão, que ele me entregou. Era uma de suas pinturas, aquareladas. Tão bonita, íntima, tão tão... fabulosa. Fiquei sem reação um tempo.
- Obrigado - foi o que eu pude dizer. Ele assentiu com a cabeça, dando um meio sorriso.
- Tu gostou? - quis saber.
- Mas é claro que sim. Ninguém nunca me deu algo assim. Obrigado mesmo - e abracei-o.
E o abraço evoluiu para um beijo intenso. Hoje eu o tinha, e ele tinha a mim. Só nós dois, um pro outro. Afastou a boca da minha só pra aproximá-la novamente meio segundo depois e começar tudo de novo.
Calor humano, frenesi, e o sexo desenrolando-se nas incontáveis horas seguintes. Violeta não dera nenhum sinal e já passava da meia noite agora. Grilos cricrilavam no vasto matagal além da varanda e a lua erguia-se imponente e prateada. Nu eu matava mais um cigarro. Eu também tinha feito algo pro Caio e pra Violeta. Uma poesia que encerrava um sem fim de referencias a nós. O nosso poema.
Caio me seguiu, e pegou o cigarro da minha mão, me deu um beijo suave na bochecha e pôs-se a observar a lua.
- Eu também fiz algo pra você. Pra Violeta também. Pra nós na verdade.
E eu recitei o poema, de cabeça. Eis aqui a transcrição:
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É a décima xícara de café E os cigarros parei de contar no décimo terceiro. O tempo tá frio Mas nos abraços amigáveis, há um calor indestrutível, íntimo. Dos corações que mudam como a lua, ardentes com saudades das nossas vontades Pendentes. Orações para salvar corações. E no meio disso tudo Inanimado ser, cheio de vida, de corpos que nele amavam dançavam Saiam e retornavam. Quantos dias bons para se viver e se ater Ao simples da vida regado de bebida maconha café, comida. Esperando tristes, mas com punho o inverno que vem logo ali, no meio de Junho.
***
É a décima xícara de café E os cigarros parei de contar no décimo terceiro. O tempo tá frio Mas nos abraços amigáveis, há um calor indestrutível, íntimo. Dos corações que mudam como a lua, ardentes com saudades das nossas vontades Pendentes. Orações para salvar corações. E no meio disso tudo Inanimado ser, cheio de vida, de corpos que nele amavam dançavam Saiam e retornavam. Quantos dias bons para se viver e se ater Ao simples da vida regado de bebida maconha café, comida. Esperando tristes, mas com punho o inverno que vem logo ali, no meio de Junho.
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Caio terminava o cigarro, e bateu palmas solitárias pra mim. E dessa vez eu que dei um beijo nele. Fiz uma xícara de café pra espantar o cansaço, Caio preparou um baseado pra rebater o café. Um misto de sensações parcas, mas válidas. Tomamos um banho absolutamente altos. High as fuck, como dizia Caio. Acabamos adormecendo assistindo a qualquer coisa. A ultima coisa que me lembro é do cheiro dele e da sensação de afago nos meus cabelos.
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