domingo, 24 de abril de 2016

~práxis

Quando desperto, a tv ainda está desligada, e o dia avança devagar. Não há sinais de Violeta, tampouco de Caio. Estar agora acordado, era de fato perceber que tudo fora real. As cores escorrendo da tv, o sexo sintetizado em uma epifania de desordens sucessivas e prazerosas, os cheiros, os gostos, a sensação do toque. 

Eu saio da sala pela porta de correr de vidro, para minha primeira luz do dia, pois o sol em si já estava quase à pino. As cores parecem de fato mais vivas, mais palatáveis ao corpo e mente. Sinto um leve aroma de café, sobrepondo o cheiro do dia, da piscina, do sol na grama verde. Claro, Caio e Violeta estavam na cozinha. 

Violeta me recebe com um beijo no rosto e uma xícara de café. Seus cabelos agora parecem um pouco violetas, ou é só efeito do ácido? No final eu prefiri não querer saber. Caio estava de costas, preparando algo. O almoço. 

- Hoje temos o dia inteiro para nos matarmos de tanto pegar sol, o que tu acha? 
- Eu acho que sim, muito bem e obrigado. 
- Achei que já estava implícito que ficaríamos ao sol, mas não agora, primeiro vamos comer. Eu preparei o nosso café, ou almoço, ou brunch.- Acho que esta foi a maior frase de Caio, desde que nos conhecemos. Violeta dizia que ele podia falar bastante... quando queria. O que não vem ao caso.


Caio preparara pra nós um tipo de torrada especial. Eggs in a Basket, mas segundo ele, esse era o nome chique para algo que consistia apenas em um ovo frito dentro de uma torrada. E era delicioso, obviamente.  Junto com o café, aquela pareceu, por muito tempo, a melhor refeição que eu faria na vida. 

E a tarde veio, e nossos corpos dançaram na água, entrelaçando-se em beijos, carinhos. Um mergulhando no outro, sem se importar com o possível futuro afogamento. Mas não era hora de pensar nisso. Caio fuma um cigarro na espreguiçadeira enquanto eu e Violeta apostamos quem prende mais a respiração. 

- De quem é esse sítio Violeta? – Caio perguntou, educadamente, com medo de parecer muito intrusivo. 
- Meu avô deixou de herança pro meu pai, mas ele não usa quase nunca. Nós costumamos vir aqui as vezes, mas nem é nada demais. 
- Na verdade é sim Vi. Não tem som de carros passando, gente falando o tempo inteiro. É como se o ar tivesse parado.  – E era mesmo. Em poucos lugares poderia-se encontrar tamanha paz. E o sítiozinho era até bem simples. Uma casa pequena, quase rústica, com uma sala e copa, uma cozinha, um quarto com cama de casal e um guarda roupa. As janelas eram de vidro, pois o pai de Violeta trocou todas quando herdou, além de dar uma modernizada nas portas também, e adicionar a alegria de todos as nossas visitas ao local. A Piscina. Que nós, por acharmos o termo piscina comum demais, decidimos chamar de “ O Lago”, que também era comum, mas era nosso, e nós éramos péssimos com nomes. 

E por horas infindas nós ficamos ao sol. É claro, Violeta trouxera um baseado, e nós ficamos agradavelmente macios e agradáveis ao toque. E eu já estava tão cansado que estava prestes a adormecer e sonhar que estava pintando Caio e Violeta com meu onírico pincel  usando as cores que eu não sei o nome. Eu estava tendo uma epifania? Como Violeta sempre dizia, epifania é quando você dá vazão ao desejo. E ela não poderia estar mais certa. 

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