terça-feira, 10 de maio de 2016

~dia um

Quando nos conhecemos, fazia um dia de sol na minha praia deserta favorita. Não direi onde é pra não matar o segredo, e para que a mesma continue deserta. 

Aquela praia era a minha única fuga nas férias de verão. Meus pais sempre iam ao mesmo lugar, todo ano, sem excessão. 

Obviamente, eu ia a praia fumar escondido, mas dizia a eles que ia buscar minha conexão com a natureza. Observar a maré virar, a ressaca do mar. E até então, minha praia deserta e particular tinha sido só minha, por anos a fio. 

Mas naquele dia, após praticar o meu hábito quase ritualístico de deitar na areia e fumar até minha visão ficar distorcida, eis que surgiu Violeta. Um delírio causado pelo abuso de drogas e o sol forte? Desidratação? Duvidei de sua existência até que ela sentou ao meu lado, inesperadamente. Eu não queria ir embora e eu também não queria ficar. Eu não tinha nada a dizer. 

- Pensei que só eu vinha aqui fumar e esperar o sol ir embora. – Ela era bastante direta.
- Parece que estou invadindo o seu espaço. - Disse eu.  
- E eu o seu. Mas não é invasão se você me emprestar seu isqueiro. Meu nome é Violeta, mas a maioria me chama de Vi. 


Ela era realmente afiada com as palavras. Eu disse meu nome, ainda sem jeito, nem sei se ela ouviu. Eu meio chapado, observei ela acender um baseado, e perdi-me na fumaça densa que ela expeliu. 

- É hoje o dia em que a maré vira – ela disse – Tá afim de esperar pra ver? 

Não tinha nada no meu caminho aquele dia, a não ser o sol, o vento, as ondas, e agora ela. 
Dei com os ombros. Ela me ofereceu o cigarro, que eu prontamente aceitei. E em poucos minutos, estávamos ali, estranhos um ao outro, porém bastante amigáveis. Calados, mas rindo de nada as vezes, por sentir o vendo estranhamente quente da tarde. 

- Posso tirar uma foto sua? – ela pediu. 
- Pode. Quer que eu faça alguma pose? 

Ela era da mesma cidade que eu, um ano mais velha. Ela tirou da bolsa uma máquina instantânea. 

- Essa pose tá perfeita! 

E ela tirou a foto. Ficou sacudindo o papel até a imagem aparecer, mas não me deixou ver. 
Sentou-se ao meu lado novamente e guardou a fotografia na bolsa. Para dois solitários em uma praia supostamente deserta, até que estávamos tendo uma tarde divertida.

- A maré virou. 

Eu não entendia bem quando a maré virava, mais necessariamente, o que era isso. Também não entendi o beijo que se seguiu, mas com todas as minhas forças, eu respondi. 
E sorrimos ao final.


E sutilmente, como a maré que vira, ela se foi. A foto, segundo ela, me seria entregue da segunda vez em que nos esbarrássemos de forma aleatória, o que não demorou muito afinal. E pelo resto do dia, o som das ondas, o beijo, o flash na hora da foto, a sensação do vento e da areia na pele, tudo ficou reverberando na minha cabeça, mas não mais do que a fatídica frase: A maré virou.

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