sexta-feira, 25 de março de 2016

~wave 3

Aqueles olhos meio castanhos, meio verdes, juntos de um olhar penetrante que só era possível sustentar dada a beleza que carregava É óbvio, eu tava meio bêbado, Violeta dançava como se não tivesse que usar as pernas pra se sustentar no dia seguinte, e o Caio tinha me chamado pra fumar um cigarro.

Na luz turva e enfumaçada, a beleza dele acentuava-se. O sorriso era de certa forma, magnético, e os dentes meio tortos, faziam-me pensar que a perfeição as vezes não passava de um conceito bobo.
Enquanto Caio distraia-se com um furinho em sua calça gasta, eu acendi o cigarro.

- Achei que a Violeta vinha também. - era um tom quase pesaroso, mas ele sorriu e me pediu o isqueiro - Vocês vem sempre aqui?
- É nosso inferninho favorito. Venho com a Vi sempre que precisamos dançar até saber quem a gente é.

Toda vez que ele sorria, os olhos pareciam faiscar. Talvez fosse o álcool mostrando a que veio.
Violeta veio pela porta radiante, parecendo reluzir, mesmo com toda fumaça em volta. As mãos ocupadas com uma bebida azul elétrico e um cigarro não aceso. Quando se aproximou, enredou os dedos nos cachinhos pretos do Caio, e me ofereceu o copo. O gosto era extremamente doce, porém, agradável. Ela acendeu o cigarro tocando-o na brasa do meu. Pelo olhar, ela já tava bêbada e sabia que em breve eu também ia estar. Bebi mais um gole enquanto ela sentava-se entre nós dois.

- E vocês já iam começar sem mim? - Perguntou rindo.
- De fato a gente começou, mas a pausa pro cigarro é sagrada - E dei um longo trago.

Caio mantinha-se calado, por vezes sorrindo para o que dizíamos, ainda uma incógnita. Depois da terceira cerveja, ele se mostrou mais bêbad... sociável. Falou das músicas que gostava de ouvir enquanto pintava suas aquarelas.

Ele e a Vi juntaram-se, já bêbados, e narraram a epopeia sobre o dia em que se conheceram, a quantidade de álcool barato, e as condições adversas que envolviam uma chuva forte e um baseado.
Estávamos trocando shotguns. Eu pra Vi, ela pro Caio, e o Caio novamente pra mim. Completamente perdidos em beijos esfumaçados.

E vitoriosamente Violeta tira da bolsa, um baseado amassado, porém funcional, e nós nos esquivamos dos seguranças para disfarçar enquanto ficávamos agradavelmente leves.
Estamos na pista, somos de todas as cores e ritmos, rodopiando com This Charming Man ao fundo.
E é quase de manhã quando morrem as últimas palavras no som, na voz do Thiago Pethit:

Amigo, escute bem o que eu digo
Gaste seu tempo comigo.
Tire toda minha roupa,
Borra o batom da minha boca,
Venha se perder por aqui.

quinta-feira, 10 de março de 2016

~wave 2

Já estamos sentados a algum tempo, esperando o nada. O sol demora-se, descendo por entre as árvores, fazendo as sombras das cadeiras alongarem-se pelo chão de tábua corrida. De fato, um fim de tarde agradável e comum. 

A xícara de café que me serve está vazia, ansiando por mais. O café dela está intocável, esfriando. acendo um cigarro, e a fumaça sobe na mesma velocidade do vapor que eleva-se do café. O silêncio reina. 

Somos só nós dois, a um tempo que não atrevo contar, com medo de, em algum momento, de justamente ter de encerrar a contagem. Ela me olha nos olhos, através da fumaça. Quer dizer algo, mas toca a xícara toda vez que desiste. Beberrica um gole. 

- Tem um outro cara - Disse ela de supetão, sustentando o olhar, observando milimetricamente a minha reação. 

Esta não foi de surpresa, ou tristeza, ou alegria. Pra mim também haviam outras garotas, outros caras.  

- Pelo que me lembro, podemos ter outros caras, outras garotas - comecei - sem problema maior. Ainda nos temos? 

- Sim, mas é que com esse é diferente. Você já sentiu? É como um magnetismo, eu não saberia definir exatamente. 

- Eu senti por você. 

O sol se fora completamente, e a unica luz na sala, era a réstia do entardecer, lilás azulada. 

- Você quer conhecê-lo? - ela dizia isso em um tom diferente, talvez com medo. 

- Você conhece os riscos? - Ri. Nós nunca conversamos sobre os outros com quem nós dormíamos ou deixávamos de dormir. Nunca impomos essa regra, mas, pelo menos pra mim, era tão único estar com Violeta, que os fatores externos normalmente, não importavam. 

Ela riu também. Talvez eu estivesse tirando um peso de seus ombros. Ela foi até a cozinha. Ouvi-a fazendo mais duas xícaras de café. Ela me trouxe uma, e agora, era a Violeta que eu conheço. Desenvolta, leve como uma pluma. Bebi o meu rapidamente, e deitei-me no sofá. 

- Conheço sim, eu só tava receosa, e agora percebi que sem motivo. 
- Eu não sei, mas talvez eu possa afirmar que não faria nada que desagradasse você. 
- Talvez eu diga que eu já sabia disso. 

Que domingo descompromissado, e que conversa estranha. Ou não. Por vezes, ficávamos horas deitados no piso de madeira, cantarolando qualquer coisa, bebendo café até que o pó terminasse, fumando todos os cigarros que pudéssemos comprar. Por vezes ficávamos calados. Ela na sala, eu no quarto, eu no quarto, ela na sala. Mas só o fato de estar, a presença, alimentava-nos.

- Quando eu vou conhecê-lo? 
- Não sei, não dá pra ser hoje, eu odeio os domingos, principalmente ao anoitecer. Não nos resta nada. Minto. Eu trouxe um baseado ontem, mas acabei esquecendo. Tá afim de fumar? 
- Manda ! 
Ela acendeu o cigarro, e o cheiro fez todo meu corpo ansiar. Ansiar pela fumaça, ansiar o toque dela. O primeiro trago ela me deu na boca. Chamava-se "shotgun", segundo ela, porque era como um tiro no seu peito. O que vem depois é história e fumaça. 




segunda-feira, 7 de março de 2016

~wave 1

- Hey vocês, prestem atenção aqui - duas palmas, para chamar a atenção.- Eu tenho a resposta !

Eu dissera aquilo em tom animado. Os dois me olhavam agora, quase com total atenção. Caio cuida para que as cinzas do cigarro caiam na xícara vazia de café, um pouco disperso e esfumaçado. Violeta passa lentamente a mão nas fibras do tapete, mas seus olhos estão em mim.

Na minha mão, descansam 3 quadradinhos de papel meticulosamente cortados. Eu separo o meu, e com a ponta dos dedos, levo o segundo pedaço delicadamente até a ponta da língua da Violeta. Um choque de energia parece emanar dali.

- E o meu? - É a pergunta que Caio faz, apagando o cigarro dentro da xícara e juntando-se de corpo e alma a nós.

Violeta o beija e posso ver seus pelos nos braços dele eriçando-se. Fecho os olhos por um momento, ouço as calmas respirações irem se intensificando, lenta e perigosamente.

Meus dedos encaminham-se para a mão, e agora, novamente, a ponta da língua. Desta vez, do Caio. O toque dos lábios vira um rápido beijo. As mãos da Violeta envolvem minha nuca, elétricas, puxando-me para si, e me tomando os lábios. Nossos papeis se invertem. Sinto a mão do Caio percorrer meu torso, suavemente. Violeta entrega-me. E eu vou de bom grado. Lenta e sutilmente, ambos envolvem-me em um abraço agradavelmente sufocante, caloroso. As três bocas encontram-se num abraço desordenado e molhado. Todos os papéis desmancham-se no momento. Não há homem nem mulher, só o abraço infindo, agradavelmente quente.

As cores da tv ligada escorrem para o chão, ainda luminescentes, e envolvem todo corpo presente naquela dança. A tinta torna os corpos quase indistinguíveis, a não ser pelo tato. Pupilas dilatadas, adrenalina talvez? Quanto tempo se passou?

Não existe tempo naquele momento, horas infindas, como um dia de veraneio que nunca termina. Mergulho em Caio, afogo-me em Violeta. Somos tão pequenos, mas tão grandes ao mesmo tempo e amo-os tanto naquele momento, que gostaria que o mesmo jamais se fosse.

É tudo tão lindo, a textura dos dois me é tão estranha e tão familiar ao mesmo tempo.

Caio acende um cigarro para tomar fôlego. Sopra-nos a fumaça de forma divertida e descompromissada. Nos dá beijos cinzas, com o tabaco misturado ao seu gosto único. É um sabor exótico. Olho para os dois, lânguido. Amo olhar para eles. Perceber Violeta sentindo cada fibra do tapete com as pontas dos dedos e assim encontrando os dedos de Caio. Perceber os dedos dele retribuindo com um carinho sutil o toque. É tão inacreditável e belo. Leve.

Nos recostamos. As cores escorrem da tela da TV ligada como tinta. Talvez ela nem estivesse ligada afinal. Quem liga?

Nos abraçamos, aconchegando-se uns nos outros, até ficarmos confortáveis. Entre o sonho e a realidade. A fumaça do ultimo cigarro do Caio eleva-se da xícara vazia, em espirais silenciosas.
Caio me dá um beijinho rápido na testa e aperta o abraço. As mãos envolvem lentamente o cabelo de Violeta, que respira tão profunda e calmamente que poderia estar adormecida.

Olho novamente para a tv: Ela estava desligada. Adormeço logo em seguida.