sexta-feira, 3 de junho de 2016

~partida



- Então é isso Violeta? – a lágrima que escorreu parecia fria – Arrasa logo o meu coração.
Ela também chorava, em silêncio. A sala já tava escura. O cigarro na minha mão era só um pontinho laranja na penumbra que se formava. O ar estava estático na varanda.

- Você ainda pensa em mim enquanto tá fodendo com ele? 
- Nunca foi isso. Você sabe que não.  – e as lágrimas agora rolavam indiscretamente, no rosto dela e no meu.
- Você falou que eu era seu .
-E você foi, você foi, mas agora não é mais.

Ela me beijou. Eu também já não segurava o choro, e era impossível não retribuir o beijo. Foi seco e silencioso.

- Me diz que eu sou seu, mais uma vez, por favor– Supliquei.

A cabeça encenava o sinal claro da negação. Eu não podia ver seus olhos, mas eu sabia que estavam mais claros e vermelhos. Todo aquele tempo construindo um castelo de núvem, feito pra devanescer na primeira brisa do outono.  Nós sabíamos do risco. Segurei a mão dela, num ultimo e vão esforço.

Dizem que as pessoas ficam mais bonitas quando estão de saída. A lembrança dela na porta, o olhar lívido na luz branca do corredor, o barulho da porta se fechando, enquanto eu voltava novamente a já quase completa escuridão.

A briga durou todo um entardecer, e agora restava um cigarro aceso e a ausência da luz.  Não lembro se adormeci ou só fiquei catatônico. Na manhã seguinte , uma mensagem do Caio na caixa postal, ligando pra saber de mim, de nós.

O primeiro sol de outono foi difícil de entender, parecia frio, branco, sem vida. Estaria minha realidade quebrada? Perdi a conta dos cigarros, mas o chão repleto de cinzas gritava pra mim que eu passara da conta a muito.
Violeta fora-se, levando um pedaço meu com ela, sem saber se podia ou não.  Deixou claros os motivos da partida. Nós sabiamos dos riscos, nos arriscamos, e perdemos. Todos perderam. Mas nela havia um sentimento desgarrado, de nascimento cruel, a desconfiança de um sentimento menor.
     
                                                                      ***

A pior parte de ter sido amaldiçoado com a poesia muito jovem, foi que virou uma espécie de arte criar expectativas extremamente infundadas. A exemplo: a de que Violeta um dia voltaria aos nossos braços e tudo seria como sempre tinha sido.
Mas o que era Violeta, se não o melhor enigma de todos. Gehemnis. Jamais a procurei, até a vir chegar, jamais impedi-a na sua partida.  Aprender a lidar com o temperamento imprevisível era a segurança de que tudo sempre correria bem. E um erro também. Não dá pra segurar o ar com as mãos.  
         
Porém Caio permaneceu. Apareceu por aqui uns dois dias depois. É incrível como esse tipo de quebra tem a habilidade incomun de distorcer a passagem de tempo. Tivemos abraços longos, mas insatisfatórios. Beijos meio vazios. Sexo quase sem calor, sem motivo, morno. Era odioso o fato de tudo ser tão outonal, como Violeta ao vento, sem rumo.

Caio permaneceu, fazendo-me sentir em seus abraços e em nosso silêncio velado, que a perda também era dele, deixando o outono seguir e e virando as boas lembranças em folhas secas, desprendendo-se ao vento mais suave, o vento que vem premeditando o temporal.