Violeta estava parada a porta da varanda, e agora o sol erguia-se lentamente, aquecendo a manhã.
Minha cabeça zonza pulsava de dor, causada pelo álcool, mas ainda sim, havia uma réstia de sentimento bom, de satisfação, uma sensação de plenitude e pós-saudade.
Os olhos claros contrastavam com o sol as suas costas, e eram uma das poucas coisas das quais eu podia discernir em seu rosto. Caio ainda dormia, com a respiração pesada e terna. Por alguns momentos me distraí com seu peito subindo e descendo, lentamente.
Violeta acendeu um cigarro.
- Sabe, eu não sei bem o que aconteceu. Por um momento tava tudo bem entre nós, e depois minha mente começou a me pregar peças , talvez?
Assenti em silêncio. Eu meio que sabia o que estava por vir.
- E então, comecei a achar que seus olhos se viravam sempre mais pro Caio, cada vez menos pra mim. E eu gosto muito de você.
Me levantei e fui ao seu encontro.
- E eu amo você ! Como você poderia pensar assim Vi? - Havia um que de preocupação leve na minha voz.
- É que, não sei, agora que me encontrei com vocês tudo parece tão confuso.
Caio virou-se no sofá, afundando o rosto em umas almofadas, negando a luz que agora já iluminava grande parte da sala. Violeta chorava um pouco, de forma silenciosa, o que fazia sua voz tremular um pouco.
- Eu não nego que esse tempo que você passou afastada me aproximou muito do Caio, mas porra, tu não sabe a falta que faz ter você conosco. Foram dias cinzas , meio mornos.
Frente a frente, ela me passou o cigarro, e o toque gentil de seus dedos me arrepiou. De saudades, de vontade, e de formas que eu ainda não entendo. Seus olhos ainda estavam marejados.
- Me desculpa.
- Tu não tem que se desculpar. Nós dois que sim.
Caio levantou-se e veio até nós com um caloroso abraço de bom dia. Parecia feliz apesar da ressaca, e demonstrava isso á sua melhor maneira, meio silenciosa, mas completamente identificável em seu rosto.
Beijou nossos rostos, roçando suavemente os lábios nos cantos dos nossos, convidando para um beijo.
- Acho que nós deveríamos tomar um banho pra sarar essa ressaca.
Havia uma beleza esplêndida naqueles corpos nus, em sua intimidade simplista recém restaurada. O banho parecia uma festa molhada onde todos se divertiam ajudando o outro a alcançar o inalcançável, que se resumia a ajudar a lavar as costas, um abraçado no outro.
A água fria ajudava a moderar a volúpia, ao mesmo tempo que dava uma nova vitalidade. As lembranças da garrafa de vodka vazia pipocavam a cada pulsar de dor na minha cabeça. Essas pontadas me faziam pensar que era possível estar extremamente feliz, mesmo com uma dor de cabeça filha da puta.
Já era quase hora do almoço quando terminamos o banho e saímos nus apartamento afora, naquele dia que seria livre mesmo se tivéssemos alguma obrigação. Caio e Violeta preparavam o almoço, ao passo que eu fui observar o dia da sacada, de cigarro na mão, e um café bem forte na outra, pra fugir das dores.
O sol a pino fazia o ar distorcer-se nos telhados, escaldantes, e tudo que era verde parecia mais claro.
Eu pensava sobre a confusão da volta repentina de Violeta quando Caio se juntou a mim, pra fumarmos um baseado antes do almoço.
- Que bom que a Vi voltou. - irrompeu Caio meio a nuvem de fumaça branca que se formava.
- Não é? - falei, pegando o baseado da sua mão.
- É, estamos meio completos de novo.
- E eu não podia estar mais feliz com isso. - Terminei.
- E a Violeta tá bem?
- Nós conversamos hoje de manha, tu ainda tava dormindo. Mas acho que sim.
- E ela disse o porque da partida?
- Ela achou por um momento que nós estávamos mais apaixonados um pelo outro do que por ela.
- Besteira né?
- É?
E Violeta chegou nesse momento.
- Porra, vocês acendem um e nem me chamam hein?
E entre nós, ela se acomodou.
- Senti falta de vocês, de verdade.
- Nós também. - Dissemos em uníssono.
Parte da comida queimou, enquanto nós fumávamos, mas ninguém se culpou. O sabor doce da companhia tirava parcialmente o gosto do queimado.
E pelo resto do dia, ficamos por ali, pensando em alguns planos futuros, em algum feriado próximo talvez. Uma viajem, várias viagens. Recuperados da ressaca, a noite estava agradável, embora os ventos do inverno passado ainda aparecessem pra dar um oi, refrescando a noite.
Fomos a todos os nossos lugares favoritos, fazendo nossas coisas favoritas, enquanto fumávamos nossos cigarros favoritos e florescíamos, um no outro, um pelo outro, Caio Violeta e eu.
E as primaveras vieram, e se foram, vieram e se foram.
E como as flores, em determinado momento, nós perecemos, mas isso não era problema,
A primavera sempre vinha.
Fomos a todos os nossos lugares favoritos, fazendo nossas coisas favoritas, enquanto fumávamos nossos cigarros favoritos e florescíamos, um no outro, um pelo outro, Caio Violeta e eu.
E as primaveras vieram, e se foram, vieram e se foram.
E como as flores, em determinado momento, nós perecemos, mas isso não era problema,
A primavera sempre vinha.

