domingo, 10 de setembro de 2017

~allways spring


Violeta estava parada a porta da varanda, e agora o sol erguia-se lentamente, aquecendo a manhã. 
Minha cabeça zonza pulsava de dor, causada pelo álcool, mas ainda sim, havia uma réstia de sentimento bom, de satisfação, uma sensação de plenitude e pós-saudade. 

Os olhos claros contrastavam com o sol as suas costas, e eram uma das poucas coisas das quais eu podia discernir em seu rosto. Caio ainda dormia, com a respiração pesada e terna. Por alguns momentos me distraí com seu peito subindo e descendo, lentamente. 

Violeta acendeu um cigarro. 

- Sabe, eu não sei bem o que aconteceu. Por um momento tava tudo bem entre nós, e depois minha mente começou a me pregar peças , talvez? 

Assenti em silêncio. Eu meio que sabia o que estava por vir. 

- E então, comecei a achar que seus olhos se viravam sempre mais pro Caio, cada vez menos pra mim. E eu gosto muito de você. 

Me levantei e fui ao seu encontro. 

- E eu amo você ! Como você poderia pensar assim Vi? - Havia um que de preocupação leve na minha voz. 

- É que, não sei, agora que me encontrei com vocês tudo parece tão confuso. 

Caio virou-se no sofá, afundando o rosto em umas almofadas, negando a luz que agora já iluminava grande parte da sala. Violeta chorava um pouco, de forma silenciosa, o que fazia sua voz tremular um pouco. 

- Eu não nego que esse tempo que você passou afastada me aproximou muito do Caio, mas porra, tu não sabe a falta que faz ter você conosco. Foram dias cinzas , meio mornos. 

Frente a frente, ela me passou o cigarro, e o toque gentil de seus dedos me arrepiou. De saudades, de vontade, e de formas que eu ainda não entendo. Seus olhos ainda estavam marejados. 

- Me desculpa. 
- Tu não tem que se desculpar. Nós dois que sim. 

Caio levantou-se e veio até nós com um caloroso abraço de bom dia. Parecia feliz apesar da ressaca, e demonstrava isso á sua melhor maneira, meio silenciosa, mas completamente identificável em seu rosto. 

Beijou nossos rostos, roçando suavemente os lábios nos cantos dos nossos, convidando para um beijo. 

- Acho que nós deveríamos tomar um banho pra sarar essa ressaca. 

Havia uma beleza esplêndida naqueles corpos nus, em sua intimidade simplista recém restaurada. O banho parecia uma festa molhada onde todos se divertiam ajudando o outro a alcançar o inalcançável, que se resumia a ajudar a lavar as costas, um abraçado no outro. 

A água fria ajudava a moderar a volúpia, ao mesmo tempo que dava uma nova vitalidade. As lembranças da garrafa de vodka vazia pipocavam a cada pulsar de dor na minha cabeça. Essas pontadas me faziam pensar que era possível estar extremamente feliz, mesmo com uma dor de cabeça filha da puta. 

Já era quase hora do almoço quando terminamos o banho e saímos nus apartamento afora, naquele dia que seria livre mesmo se tivéssemos alguma obrigação. Caio e Violeta preparavam o almoço, ao passo que eu fui observar o dia da sacada, de cigarro na mão, e um café bem forte na outra, pra fugir das dores. 



O sol a pino fazia o ar distorcer-se nos telhados, escaldantes, e tudo que era verde parecia mais claro. 
Eu pensava sobre a confusão da volta repentina de Violeta quando Caio se juntou a mim, pra fumarmos um baseado antes do almoço. 

- Que bom que a Vi voltou. - irrompeu Caio meio a nuvem de fumaça branca que se formava.
- Não é? - falei, pegando o baseado da sua mão. 
- É, estamos meio completos de novo. 
- E eu não podia estar mais feliz com isso. - Terminei. 
- E a Violeta tá bem? 
- Nós conversamos hoje de manha, tu ainda tava dormindo. Mas acho que sim. 
- E ela disse o porque da partida? 
- Ela achou por um momento que nós estávamos mais apaixonados um pelo outro do que por ela. 
- Besteira né? 
- É? 

E Violeta chegou nesse momento. 

- Porra, vocês acendem um e nem me chamam hein? 

E entre nós, ela se acomodou. 

- Senti falta de vocês, de verdade. 
- Nós também. - Dissemos em uníssono. 

Parte da comida queimou, enquanto nós fumávamos, mas ninguém se culpou. O sabor doce da companhia tirava parcialmente o gosto do queimado. 

E pelo resto do dia, ficamos por ali, pensando em alguns planos futuros, em algum feriado próximo talvez. Uma viajem, várias viagens. Recuperados da ressaca, a noite estava agradável, embora os ventos do inverno passado ainda aparecessem pra dar um oi, refrescando a noite.

Fomos a todos os nossos lugares favoritos, fazendo nossas coisas favoritas, enquanto fumávamos nossos cigarros favoritos e florescíamos, um no outro, um pelo outro, Caio Violeta e eu.
E as primaveras vieram, e se foram, vieram e se foram.
E como as flores, em determinado momento, nós perecemos, mas isso não era problema,

A primavera sempre vinha.





quarta-feira, 30 de agosto de 2017

~primaveril

Estamos dançando ininterruptamente a algum tempo. A meia luz, evitando olhar fixamente para uma direção que possa parecer triste. Fechamos os olhos e nos beijamos, no ritmo suave de uma melodia suave e inexistente.

É ao mesmo tempo, o paraíso e um labirinto, que não tem existência nem fim.
Eu não quero ser encontrado nesse lugar, com cheiro de flores secas e durante a meia noite há sol.
Mais um beijo e eu volto pr'aquela dança, só entre nós.

Nos perdemos nessa dança, paralisados, sem nunca querer ir pra casa, adiando o inadiável.
Parar a dança significava pensar sobre a ausência de Violeta.
Entrelaçados na fumaça de um cigarro, a meia luz via-se ternura. Caio meio parado, com seus olhos desatentos. Violeta com uma indecifrável expressão. Mas ainda sim, ternura.

Não parem. Continuamos nos balançando, e sem dizer uma palavra, esquecendo lentamente o tempo que passou meio vazio, sem Violeta por ali. O futuro ainda era uma incógnita, mas não chegaria logo.

E mesmo carregando o peso das possíveis futuras conversas e discussões, a noite da chegada de Violeta foi extremamente agradável. A saudade no ar era maior do que qualquer coisa, e nos preenchia.

Violeta trouxera algumas garrafas de vodka barata, e isso bastou para que as cores preenchessem o ar e desse aos nossos beijos um calor extra. Em pocas horas, foi como se ela não houvesse partido, mas profundamente, ainda havia uma pontinha de algo, que se revelava a cada silêncio pós suspiro que dávamos após uma risada ou algum beijo.

- E como vocês estiveram? - Ela perguntou, após a quarta dose bem servida de vodka.
- Seria melhor com você. Mas nós estivemos bem. E juntos. Sentimos a sua falta Vi.

Violeta se mostrou surpresa. Eu também. Caio era surpreendente as vezes.

- Sentimos muito sua falta - Eu inteirei. Meu olhar e minha confusão sentimental não me deixariam mentir sobre isso.

- E você? Esteve bem? - Continuei.

- Na verdade eu não estive bem, mas podemos deixar pra outra hora? - E Violeta esquivou-se.

Não insisti, e decidimos aproveitar o resto da noite. E naquela sala de apartamento turva de tanta fumaça, adormecemos abraçados no sofá, felizes, principalmente por ignorar as dores de cabeça proveniente do excesso de álcool e do abuso de cigarros.

O dia seguinte era 20 de setembro, o primeiro dia da primavera daquele ano. A lembrança de Violeta e Caio iluminados pelo primeiro sol primaveril, assim que acordei, ainda é a minha favorita.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

~dazed and confused

O silêncio pode ser eloquente, de fato. Ele não trai como as palavras, embora possa ser tão mal interpretado quanto. Pode machucar e pode ser reconfortante. O silêncio é uma espécie de festival de paradoxos, e Caio era um amontoado deles.

Observá-lo tornou-se uma das minhas atividades favoritas. Eram infindáveis os fins de tarde em que contentava-me apenas em olhá-lo. Contemplativo, com um cigarro na mão. Era minha visão favorita dele. E era reconfortante.

- O que tu tá olhando?
- Você , uai.
- Senta aqui.
- Vem pra cá você, o vento tá ótimo.

Aos poucos, o ar melancólico pós partida de Violeta ia dissipando-se. A saudade ainda martelava, mas agora parecia fraca, menos cinza e mais rarefeita. Uma espécie de coração que batia devagar demais.

E foi observando Caio que enfim, compreendi que ele não era de fato uma rocha de silêncio e mistério. Ele só era sucinto nas palavras, e existencialista em demasia nos pensamentos. Um ultra romântico, sem dúvidas. 

Já faz algum tempo que Caio não vai embora, e isso não me incomoda. A casa é um festival de cinzas e bitucas pelo chão, e o ar é embaçado pela fumaça que nunca vai embora totalmente. Na mesa algumas xícaras tornaram-se cinzeiros para sempre. O café é forte como cada abraço, e junto com um infinito de cigarros, tiram a força da boca a sensação doce dos beijos.

E o final do outono ganhava um tom visual feliz e melancólico ao mesmo tempo.

Quando eu me sento com ele no sofá, aproveitando a listra de luz, agora bem fininha, ele segura minha mão, e me dá o cigarro pela metade. Uma imagem estática perfeita, se não fosse a fumaça do cigarro, sempre subindo.


- Tem um tempo que eu quero te dizer algo. - Ele diz, virando seus enormes olhos pra mim. Eles estão estranhamente claros, quase iluminados eu diria. Estamos perto e eu posso ver todos os detalhes irregulares da sua íris.

- E eu estou te ouvindo, pode falar.
- Tem certeza? Já tem um tempo que eu quero dizer isso, só não sei como.
- Você pode sempre me dizer o que quiser, quando quiser Caio.
- Ok.
- Ok?
- Eu amo você.

E entre o espaço de tempo que eu ouvi isso, e o esboço da minha reação, a campainha do apartamento tocou. E Caio levantou-se de supetão, o que não era exatamente de seu feitio, para atender. Segundos depois, ele e Violeta passam pelo umbral. Dazed and Confused do Led Zeppelin toca mentalmente pra mim, enquanto me sinto caindo, girando e girando e girando pela espiral que é o amor. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

~ dos olhares violentos

Conflito. Não existe palavra melhor pra definir o misto confuso e louco das sensações e sentimentos que agora me habitam. Não consigo fumar um cigarro inteiro sem que a fumaça me traga lembranças dolorosas por demais de algo que eu mesma decidi por um fim. 

Não bastasse a fumaça, o sítio inteiro me traz lembranças. A transa coloridamente transcendental no tapete, as brincadeiras na piscina, as caminhadas pela mata em volta da casa, o céu a noite, o cheiro nos lençóis. Quase dá pra ver os dois na beira da piscina, me chamando pra mais um mergulho.

Naturalmente as coisas tem um fim, digo. Mas as vezes podemos escolher o tal momento. Nunca tive as pretensões dos amores eternos porque  os conceitos me soavam antiquados. Mas definitivamente, o sentimento quando real, era forte, potencialmente doloroso, e fazia toda poesia já escrita ter ali seu sentido, de fato. 

E como era bom. Abençoado seja o dia em que decidi ir em uma praia pouco frequentada, e entregar aquela foto posteriormente. Toda aquela dança enfumaçada, alta, lisérgica, drogada. O festival das mais doces e amargas sensações. Visuais, extra-sensoriais, sinestésicas. Ahh, era muito fácil amá-lo.

E na troca dos pares também. Caio era um amor, com toda sua delicadeza silenciosa, de carinho em cada gesto e calor em cada beijo trocado. O cheiro dele misturado com o cigarro ainda me fazia questionar o quão longe a vontade de se reviver uma sensação podia ir. 

E o conflito vinha da saudade. Amores não são eternos, mas as lembranças que eles produzem, essas são difíceis de deixar pra lá. Podem ficar embaçadas, enfumaçadas, escondidas... mas basta um cheiro, uma brisa, o gosto de um cigarro, e o turbilhão de imagens cheiros e toques estraçalha-me por dentro. É tão ruim dormir em uma cama sozinha quando o costumávamos ser três. 

É tudo mais frio, como o ódio irracional que eu me pegava sentindo naqueles últimos dias. Eu estava ficando pra escanteio. Não da forma como eu achava justa, rápida e limpa. Mas da maneira cruel. Um pouco todo dia. Claro, nós sabíamos dos riscos. Mas sabíamos? Mesmo? 

Caio, de repente, estava mais presente com Lucca do que eu. Iam dançar juntos nos dias que eu não podia. Proposital? Talvez não, mas isso só tornava tudo mais doloroso. E em nenhum momento os dois percebiam. 

É aterrador perceber o início do fim do seu próprio tempo com alguém. E um relacionamento que não seja de uma noite com três pessoas é uma metáfora perfeita para um barco construído exclusivamente para afundar. 

E porque esperar que o barco afunde devagar, quando se pode terminar tudo de uma vez jogando-se para o mar revolto? A dor não é física, porém funciona como placebo para a libertação, ainda que precoce e de certos pontos de vista, auto-destrutiva. 

Ahh, como eu sinto saudades dos dois e como por hora eu sequer quero saber o que eles fazem. A piscina do sítio tá cheia e fria. Sentada na beirada meus pés passeiam vagarosamente, desfazendo a todo momento o reflexo do céu e a mão vem e vai da boca com mais um cigarro. A desculpa perfeita pra mergulhar na água, na minha solidão. Eu quero voltar. Eles querem que eu volte. E as provas disso devem estar no meu telefone. Mas tudo tem seu tempo. E nesse caminhar, eles podem me esquecer, ou eu deles. 

Mas agora tudo que eu quero é o silêncio frio da água e o rufar do meu coração, ferido, porém vivo. 
Queria terminar o cigarro, mas a vontade de estar submersa vai contra tudo, e o cigarro morre no mesmo momento que tomo fôlego para um longo e silencioso mergulho na paz escura do fundo da piscina. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

~abstinência


Ao redor tudo é som, mas em mim habita o silêncio. É como se o mundo estivesse prestes a ruir sobre mim. O barulho ao redor não me impede de ainda ouvi-la, mais alto que nunca: 

- Você foi, você foi. Mas agora não é mais. 

Há uma correria, mesmo eu estando imóvel. Sinto-me pesado pelas sombras que agora me habitam. O alarme que ouço indica que deve ser quase manhã. Também ouço a porta batendo, e Violeta partindo, mas a porta está trancada. 

E tudo vai passando, e acontecendo. Os ventos medianos mas insistentes do outono vão soprando tudo pra longe, trazendo o frio já pré anunciado. Caio não está, e já faz alguns dias. Eu mando uma mensagem que ele responde de imediato, mas eu já não me preocupo em olhar. 

O amanhecer ainda não veio e a unica luz é a do telefone piscando. Tudo parece tão superficial agora. Solidão é uma benção, costumam dizer por aí, mas eu me recuso a aceitar . Se eu me esforçar posso ouvir o furacão que vem vindo pra acabar com tudo de uma vez. 

E novamente eu ouço. Já foi mas não é mais. Há tempos não a vejo. Mesmo religiosamente indo a todo lugar comum. Violeta não emitia mais nenhum sinal, senão o da ausência. Mas o que fazer que não respeitar o seu tempo. A abstinência me gritava agora. Não de fumo nem de droga alguma. A abstinência do sentir-se pleno quando com o outro. 

Eu não desapareceria e Violeta talvez nunca mais voltasse. Caio ajudava-me a passar por isso, e eu me questionava a falta que Violeta fazia a ele. Provavelmente menos visceral do que a necessidade que eu sentia. Eu tentava passar por isso incólume, sem impor a mim grandes coisas, o que era um erro, de fato. Definitivamente eu não estava pronto. 

Eu não podia mais ouvir o furacão anunciado. Mas sentia-o, porque estava nele. Dilacerando-me. Era péssimo pensar em Violeta amando outrem. Mas este sempre fora nosso contrato com a liberdade, independente do sentimento forte e ao mesmo tempo delicado em que nós nos mergulhávamos todo dia, um pouco mais. 

Você foi, foi, foi, foi, foi. 

E mesmo com isso tudo, os sentimentos por Caio não enfraqueciam, como eu imaginei que aconteceria no caso de um possível (porém improvável?) rompimento. A sua maneira ele era encantador, companheiro, mesmo no silêncio velado em que as vezes nós nos imergíamos. Carinhoso em todo gesto, gentil em todo toque, caloroso até no abraço mais breve e no beijo mais brando. 

Eu o amava e Violeta havia pego um bilhete para o próximo trem. O vento sussurrava: Você foi. 
Violeta fora. E eu permanecia, seguindo o vento calmo do outono, floreando devagar, realizando leves piparotes, ao passo que a ventania arranhava meu âmago, ensurdecia meus ouvidos e toldava minha visão, como o vendaval que costuma levantar poeira e folhas demais.

Ao redor tudo é som, mas escuto apenas o vento, uivando no vazio infindo e meio gelado. 

sábado, 16 de julho de 2016

~sometimes, we float

Caio me chama pra passear, mas eu peço pra deixarmos pra outro dia. Ele quer ir nos lugares que outrora frequentávamos assiduamente, onde costumávamos dançar, beber, tanto faz. Todos os dias são os mais solitários da minha vida desde que a Violeta foi. Era como entrar na rua mais movimentada da cidade, e tudo estar no mais absoluto e assustador silêncio. Você só ouve o vento nos ouvidos, e é invadido ao mesmo tempo por uma paz e um medo súbitos. Tudo é vazio. É como uma uma camada fina e fria que separa você do resto do mundo. Todo o barulho volta, mas você permanece em silêncio por mais alguns segundos. 

Eu mando uma mensagem dizendo que minhas emoções estão mortas. Não me admira que eu me sinta tão estranho. Caio diz que vem passar um tempo comigo, e eu peço pra deixar pra outro dia, mas ele insiste. Ele me diz que é a primeira vez que ele sente como se algo fosse dele.

Isso dói tão fundo no meu âmago, que minha visão enturvece. A sensação é a mesma de uma droga muito pesada. Acendeu uma centelha de alegria , e uma fogueira inteira de culpa, incerteza, loucura, desorientação.Se eu pudesse ter de volta o tempo, eu adoraria desperdiçá-lo mais uma vez amando. Mas Violeta se foi, e nada é como antes.

Caio chega e eu já fumei todos os cigarros que existiam. Ele me dá mais alguns e um abraço tão confortável que eu me perco. Quando dou por mim estou chorando, mas ele não me larga. E quando meus olhos já estão secos, vermelhos e um pouco vidrados, eu encontro seu sorriso, meio cansado, meio amarelo.

Eu preparo um café, nós temos muitos cigarros. A falta da Vi também se faz presente nele. Dá pra perceber em todo gole de café, em cada tragada de cigarro. Agora ele se abre mais pra mim, porém ainda temos longos períodos de um silêncio confortável, e de cumplicidade. Caio é o meu amigo certo das horas de auto-destruição e abuso de drogas, e talvez eu seja o porto seguro dele.

- Tá afim de dar uma volta hoje? - ele pergunta.
- E pra onde nós vamos? - respondi.
- Nós vamos rápido e pra lugar nenhum.

E nós saímos pela noite fria de outono. Eu no carona, cigarro na mão. Caio puxava a fumaça da minha boca quando queria fumar e meu deus, como eu achava aquilo sexy. A vida voltava a mim por alguns segundos, mas esvaia-se depois , junto com a fumaça do próximo cigarro.

- Tu quer tentar algo novo e perigoso hoje? - e um meio sorriso esboçou-se no rosto dele.


Eu preparava um baseado e a menção ao perigo fez meus pelos da nuca eriçarem. Algo novo e perigoso. Novo. E perigoso. Talvez o arrepio fosse um engano. Caio gostava de lugares altos, andar nas beiradas, dançar com o perigo vez ou outra.

E eu disse sim, mesmo sem saber o que era.

Então dirigimos sem rumo, nas ruas quase totalmente vazias. O outono deixava a noite menos nítida, e tudo ao redor era uma quase névoa.

- É agora - Ele diz.

Ele para e desliga o carro completamente. Os faróis estão apagados e estamos exatamente no meio da rua. É uma ladeira razoavelmente comprida, não tão íngreme, que terminava em um cruzamento. Ele dá um trago no meu baseado, e um beijo que me deixa exatamente sem fôlego. Então ele solta o freio de mão e tira as mãos do volante. E o carro começa sua descida, cada vez mais rápido. Há um misto de medo e adrenalina correndo em mim. Tudo fica extremamente nítido. Caio com os olhos fechados, quase sorrindo, e o meio cigarro na mão dele brilha como um pequeno farol. Eu respiro fundo e também fecho os olhos. A sensação é exatamente a de flutuar. Sinto a velocidade diminuir quando passamos pelo cruzamento ilesos e começamos a subir a continuação da rua. Caio olha pra mim, curioso.

- Você gostou? - A voz dele exalava uma euforia sutil, mas ainda sim, percebível.
- Foi como flutuar !
- Sim, como se nada terreno nos prendesse.

Caio soava libertador. E nós nos beijamos. E dessa vez eu imprimi em cada beijo uma paixão ímpar. Talvez fosse a adrenalina, ou talvez só a sensação de ainda estar flutuando. E pelo resto da noite ficamos por aí, desperdiçando-nos um no outro. Encontrando o conforto e a loucura juntos e sozinhos ao mesmo tempo. E por mais que, no final da noite, enquanto nos aquecíamos no corpo um do outro, eu tenha lembrado de Violeta, por um ou dois momentos Caio me fez flutuar e esquecer completamente aquela dor crua da saudade. E naquela noite eu dormi em paz, mesmo tendo certeza de que nos meus sonhos, o tormento nunca terminava.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

~partida



- Então é isso Violeta? – a lágrima que escorreu parecia fria – Arrasa logo o meu coração.
Ela também chorava, em silêncio. A sala já tava escura. O cigarro na minha mão era só um pontinho laranja na penumbra que se formava. O ar estava estático na varanda.

- Você ainda pensa em mim enquanto tá fodendo com ele? 
- Nunca foi isso. Você sabe que não.  – e as lágrimas agora rolavam indiscretamente, no rosto dela e no meu.
- Você falou que eu era seu .
-E você foi, você foi, mas agora não é mais.

Ela me beijou. Eu também já não segurava o choro, e era impossível não retribuir o beijo. Foi seco e silencioso.

- Me diz que eu sou seu, mais uma vez, por favor– Supliquei.

A cabeça encenava o sinal claro da negação. Eu não podia ver seus olhos, mas eu sabia que estavam mais claros e vermelhos. Todo aquele tempo construindo um castelo de núvem, feito pra devanescer na primeira brisa do outono.  Nós sabíamos do risco. Segurei a mão dela, num ultimo e vão esforço.

Dizem que as pessoas ficam mais bonitas quando estão de saída. A lembrança dela na porta, o olhar lívido na luz branca do corredor, o barulho da porta se fechando, enquanto eu voltava novamente a já quase completa escuridão.

A briga durou todo um entardecer, e agora restava um cigarro aceso e a ausência da luz.  Não lembro se adormeci ou só fiquei catatônico. Na manhã seguinte , uma mensagem do Caio na caixa postal, ligando pra saber de mim, de nós.

O primeiro sol de outono foi difícil de entender, parecia frio, branco, sem vida. Estaria minha realidade quebrada? Perdi a conta dos cigarros, mas o chão repleto de cinzas gritava pra mim que eu passara da conta a muito.
Violeta fora-se, levando um pedaço meu com ela, sem saber se podia ou não.  Deixou claros os motivos da partida. Nós sabiamos dos riscos, nos arriscamos, e perdemos. Todos perderam. Mas nela havia um sentimento desgarrado, de nascimento cruel, a desconfiança de um sentimento menor.
     
                                                                      ***

A pior parte de ter sido amaldiçoado com a poesia muito jovem, foi que virou uma espécie de arte criar expectativas extremamente infundadas. A exemplo: a de que Violeta um dia voltaria aos nossos braços e tudo seria como sempre tinha sido.
Mas o que era Violeta, se não o melhor enigma de todos. Gehemnis. Jamais a procurei, até a vir chegar, jamais impedi-a na sua partida.  Aprender a lidar com o temperamento imprevisível era a segurança de que tudo sempre correria bem. E um erro também. Não dá pra segurar o ar com as mãos.  
         
Porém Caio permaneceu. Apareceu por aqui uns dois dias depois. É incrível como esse tipo de quebra tem a habilidade incomun de distorcer a passagem de tempo. Tivemos abraços longos, mas insatisfatórios. Beijos meio vazios. Sexo quase sem calor, sem motivo, morno. Era odioso o fato de tudo ser tão outonal, como Violeta ao vento, sem rumo.

Caio permaneceu, fazendo-me sentir em seus abraços e em nosso silêncio velado, que a perda também era dele, deixando o outono seguir e e virando as boas lembranças em folhas secas, desprendendo-se ao vento mais suave, o vento que vem premeditando o temporal.