quarta-feira, 20 de julho de 2016

~abstinência


Ao redor tudo é som, mas em mim habita o silêncio. É como se o mundo estivesse prestes a ruir sobre mim. O barulho ao redor não me impede de ainda ouvi-la, mais alto que nunca: 

- Você foi, você foi. Mas agora não é mais. 

Há uma correria, mesmo eu estando imóvel. Sinto-me pesado pelas sombras que agora me habitam. O alarme que ouço indica que deve ser quase manhã. Também ouço a porta batendo, e Violeta partindo, mas a porta está trancada. 

E tudo vai passando, e acontecendo. Os ventos medianos mas insistentes do outono vão soprando tudo pra longe, trazendo o frio já pré anunciado. Caio não está, e já faz alguns dias. Eu mando uma mensagem que ele responde de imediato, mas eu já não me preocupo em olhar. 

O amanhecer ainda não veio e a unica luz é a do telefone piscando. Tudo parece tão superficial agora. Solidão é uma benção, costumam dizer por aí, mas eu me recuso a aceitar . Se eu me esforçar posso ouvir o furacão que vem vindo pra acabar com tudo de uma vez. 

E novamente eu ouço. Já foi mas não é mais. Há tempos não a vejo. Mesmo religiosamente indo a todo lugar comum. Violeta não emitia mais nenhum sinal, senão o da ausência. Mas o que fazer que não respeitar o seu tempo. A abstinência me gritava agora. Não de fumo nem de droga alguma. A abstinência do sentir-se pleno quando com o outro. 

Eu não desapareceria e Violeta talvez nunca mais voltasse. Caio ajudava-me a passar por isso, e eu me questionava a falta que Violeta fazia a ele. Provavelmente menos visceral do que a necessidade que eu sentia. Eu tentava passar por isso incólume, sem impor a mim grandes coisas, o que era um erro, de fato. Definitivamente eu não estava pronto. 

Eu não podia mais ouvir o furacão anunciado. Mas sentia-o, porque estava nele. Dilacerando-me. Era péssimo pensar em Violeta amando outrem. Mas este sempre fora nosso contrato com a liberdade, independente do sentimento forte e ao mesmo tempo delicado em que nós nos mergulhávamos todo dia, um pouco mais. 

Você foi, foi, foi, foi, foi. 

E mesmo com isso tudo, os sentimentos por Caio não enfraqueciam, como eu imaginei que aconteceria no caso de um possível (porém improvável?) rompimento. A sua maneira ele era encantador, companheiro, mesmo no silêncio velado em que as vezes nós nos imergíamos. Carinhoso em todo gesto, gentil em todo toque, caloroso até no abraço mais breve e no beijo mais brando. 

Eu o amava e Violeta havia pego um bilhete para o próximo trem. O vento sussurrava: Você foi. 
Violeta fora. E eu permanecia, seguindo o vento calmo do outono, floreando devagar, realizando leves piparotes, ao passo que a ventania arranhava meu âmago, ensurdecia meus ouvidos e toldava minha visão, como o vendaval que costuma levantar poeira e folhas demais.

Ao redor tudo é som, mas escuto apenas o vento, uivando no vazio infindo e meio gelado. 

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