quarta-feira, 30 de agosto de 2017

~primaveril

Estamos dançando ininterruptamente a algum tempo. A meia luz, evitando olhar fixamente para uma direção que possa parecer triste. Fechamos os olhos e nos beijamos, no ritmo suave de uma melodia suave e inexistente.

É ao mesmo tempo, o paraíso e um labirinto, que não tem existência nem fim.
Eu não quero ser encontrado nesse lugar, com cheiro de flores secas e durante a meia noite há sol.
Mais um beijo e eu volto pr'aquela dança, só entre nós.

Nos perdemos nessa dança, paralisados, sem nunca querer ir pra casa, adiando o inadiável.
Parar a dança significava pensar sobre a ausência de Violeta.
Entrelaçados na fumaça de um cigarro, a meia luz via-se ternura. Caio meio parado, com seus olhos desatentos. Violeta com uma indecifrável expressão. Mas ainda sim, ternura.

Não parem. Continuamos nos balançando, e sem dizer uma palavra, esquecendo lentamente o tempo que passou meio vazio, sem Violeta por ali. O futuro ainda era uma incógnita, mas não chegaria logo.

E mesmo carregando o peso das possíveis futuras conversas e discussões, a noite da chegada de Violeta foi extremamente agradável. A saudade no ar era maior do que qualquer coisa, e nos preenchia.

Violeta trouxera algumas garrafas de vodka barata, e isso bastou para que as cores preenchessem o ar e desse aos nossos beijos um calor extra. Em pocas horas, foi como se ela não houvesse partido, mas profundamente, ainda havia uma pontinha de algo, que se revelava a cada silêncio pós suspiro que dávamos após uma risada ou algum beijo.

- E como vocês estiveram? - Ela perguntou, após a quarta dose bem servida de vodka.
- Seria melhor com você. Mas nós estivemos bem. E juntos. Sentimos a sua falta Vi.

Violeta se mostrou surpresa. Eu também. Caio era surpreendente as vezes.

- Sentimos muito sua falta - Eu inteirei. Meu olhar e minha confusão sentimental não me deixariam mentir sobre isso.

- E você? Esteve bem? - Continuei.

- Na verdade eu não estive bem, mas podemos deixar pra outra hora? - E Violeta esquivou-se.

Não insisti, e decidimos aproveitar o resto da noite. E naquela sala de apartamento turva de tanta fumaça, adormecemos abraçados no sofá, felizes, principalmente por ignorar as dores de cabeça proveniente do excesso de álcool e do abuso de cigarros.

O dia seguinte era 20 de setembro, o primeiro dia da primavera daquele ano. A lembrança de Violeta e Caio iluminados pelo primeiro sol primaveril, assim que acordei, ainda é a minha favorita.