Já estamos sentados a algum tempo, esperando o nada. O sol demora-se, descendo por entre as árvores, fazendo as sombras das cadeiras alongarem-se pelo chão de tábua corrida. De fato, um fim de tarde agradável e comum.
A xícara de café que me serve está vazia, ansiando por mais. O café dela está intocável, esfriando. acendo um cigarro, e a fumaça sobe na mesma velocidade do vapor que eleva-se do café. O silêncio reina.
Somos só nós dois, a um tempo que não atrevo contar, com medo de, em algum momento, de justamente ter de encerrar a contagem. Ela me olha nos olhos, através da fumaça. Quer dizer algo, mas toca a xícara toda vez que desiste. Beberrica um gole.
- Tem um outro cara - Disse ela de supetão, sustentando o olhar, observando milimetricamente a minha reação.
Esta não foi de surpresa, ou tristeza, ou alegria. Pra mim também haviam outras garotas, outros caras.
- Pelo que me lembro, podemos ter outros caras, outras garotas - comecei - sem problema maior. Ainda nos temos?
- Sim, mas é que com esse é diferente. Você já sentiu? É como um magnetismo, eu não saberia definir exatamente.
- Eu senti por você.
O sol se fora completamente, e a unica luz na sala, era a réstia do entardecer, lilás azulada.
- Você quer conhecê-lo? - ela dizia isso em um tom diferente, talvez com medo.
- Você conhece os riscos? - Ri. Nós nunca conversamos sobre os outros com quem nós dormíamos ou deixávamos de dormir. Nunca impomos essa regra, mas, pelo menos pra mim, era tão único estar com Violeta, que os fatores externos normalmente, não importavam.
Ela riu também. Talvez eu estivesse tirando um peso de seus ombros. Ela foi até a cozinha. Ouvi-a fazendo mais duas xícaras de café. Ela me trouxe uma, e agora, era a Violeta que eu conheço. Desenvolta, leve como uma pluma. Bebi o meu rapidamente, e deitei-me no sofá.
- Conheço sim, eu só tava receosa, e agora percebi que sem motivo.
- Eu não sei, mas talvez eu possa afirmar que não faria nada que desagradasse você.
- Talvez eu diga que eu já sabia disso.
Que domingo descompromissado, e que conversa estranha. Ou não. Por vezes, ficávamos horas deitados no piso de madeira, cantarolando qualquer coisa, bebendo café até que o pó terminasse, fumando todos os cigarros que pudéssemos comprar. Por vezes ficávamos calados. Ela na sala, eu no quarto, eu no quarto, ela na sala. Mas só o fato de estar, a presença, alimentava-nos.
- Quando eu vou conhecê-lo?
- Não sei, não dá pra ser hoje, eu odeio os domingos, principalmente ao anoitecer. Não nos resta nada. Minto. Eu trouxe um baseado ontem, mas acabei esquecendo. Tá afim de fumar?
- Manda !
Ela acendeu o cigarro, e o cheiro fez todo meu corpo ansiar. Ansiar pela fumaça, ansiar o toque dela. O primeiro trago ela me deu na boca. Chamava-se "shotgun", segundo ela, porque era como um tiro no seu peito. O que vem depois é história e fumaça.
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